sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Fotografias antigas


Fotos cedidas por Paulo Madeira


Este novo tópico é um espaço de partilha. É um desafio a todos os conterrâneos, especialmente aos mais velhos. Tenho várias fotos com pessoas de Travanca, que desconheço quem sejam. O desafio é ajudar-me a descobrir quem está nas fotografias. Seguramente, neste caso, será uma familia de Travanca, dos primeiros anos do séc.XX. Deixe um palpite no tópico - comentários - desta mensagem.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Travanca de Lagos – Uma viagem pelo tempo

Postal antigo - cedido por Paulo Madeira

A ocupação humana do território deverá ser bastante remota, a julgar, primeiro pela proximidade da Bobadela, antiga cidade romana - a splendidissima civitas - por outro lado a existência da Anta do Pinheiro dos Abraços junto a Travanca, e de outros monumentos megalíticos nas freguesias vizinhas. A base de dados do IPA regista a existência em Travanca de Lagos duma Anta, período Neo-calcolítico, mas sem qualquer anotação de trabalhos ou estudos.
Na freguesia existem ainda, muitas sepulturas rupestres e restos de necrópoles da Alta Idade Média e até, possivelmente, pré-históricas. Segundo consta na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira terá havido por aqui povoamento já há cerca de 5.000 a 6.000 anos.

O 1º e mais antigo documento escrito na história do actual concelho de Oliveira do Hospital e que faz referência a Travanca é uma ”carta de testamento” de uma tal Múnia ou Muna, datada de 22 de Janeiro de 969, mostra que ela doa ao Mosteiro do Lorvão os bens que tinha entre o Mondego e o Alva, especialmente Midões, Touriz e Flamianes ou Framiães na margem do Alva, e aí se diz que Midões com Touriz confronta com a “villa” (rústica) de Travanca.

A acção repovoadora do Mosteiro do Lorvão, instituição robusta, fundada no último quartel do séc.IX pouco após a tomada de Coimbra em 878, por D. Afonso III de Leão, estendeu-se por uma vasta região que ia de Ceira e Serpins a Penacova e Gondelim na foz do Alva, a Miranda do Corvo, tendo a população cristã chegado a Mucela e Sarzedo, Santa Comba Dão, Midões e Travanca e outras terras, e por toda esta extensa área a população estabilizou, fundaram-se igrejas, cultivavam-se tractos e courelas.

Mas o domínio cristão na Península continuava instável, já por disputas entre os chefes e os condes cristãos, já por acção dos muçulmanos. O Rei Garcia, rei de Leão, morre em 914 e sucedeu-lhe Ordonho II que governava a Galiza, ficando assim reunificados estes dois reinos, que, dentro em pouco, passaram a chamar-se unicamente Reino de Leão (embora, temporariamente, a Galiza viesse a estar novamente independente com Sancho até à morte deste em 929, quando o rei de Leão era Afonso IV, seu irmão). Por esta altura, territorialmente e politicamente a região das Beiras era Reino de Leão.
E, com efeito, não se encontram notícias de incursões ou combates com muçulmanos na região que possa corresponder a Seia, Oliveira do Hospital, Vale do Alva ou redondezas por esses tempos de 911 a 937 mesmo nas décadas mais próximas seguintes.

O segundo documento mais antigo a mencionar Travanca é uma Carta de D. Afonso Henriques de 20-3-1133, de coutamento de Midões ao já dito Mosteiro do Lorvão. Volta a citar-se esta terra ao traçarem-se os limites e de novo se refere a tal arcana: “dividit Midones cum Teorice (Touriz) et inde per illa arcanam que est inter Midones et Travanca”. Ainda no séc. XIII se cita em Travanca o lugar chamado Pedra de Tom “- “termino de Travanca in loco qui dicitur Petra de Tono” – com possível interesse arqueológico.

Nos primeiros tempos da Nacionalidade, Travanca era terra do termo de Seia, uma possessão do rei sob o domínio directo da Coroa. Segundo as actas das Inquirições de 1258, era terra reguenga, tendo um celeiro real, chamado cellerium, onde se entregavam os foros ou tributos da coroa. Lá vem referido também que a terra e a igreja eram possessões da Coroa. No campo eclesiástico, era Paróquia do Arcebispado de Seia. No Arrolamento Paroquial de 1320-1321, a igreja aparece expressamente denominada “de São Pedro de Travanca da terra de Seia” .

Na parte final do séc. XIV, D. João I deu a Gomes Freire de Andrade o senhorio da Bobadela, Travanca, Lagos e outras terras na Beira. Era ilho de Nuno Freire de Andrade, fidalgo vindo da Galiza, que também se ligou a Beja, de quem o rei tinha recebido importante serviço.

A partir de D. João IV, que criou a casa do infantado (1654), o senhorio das terras da Bobadela, Travanca e Lagos passaram ao proveito desta instituição, isto é, a terras do Infantado.

Mais tarde,Travanca, Negrelos, Andorinha, Covas e Balocas, passam a fazer parte do mesmo concelho de Lagos da Beira, concelho que se caracterizava por ser territorialmente descontínuo. A Justiça tinha sede em Lagos da Beira embora a parte administrativa e reuniões de câmara fossem realizadas em Travanca.

Já assim acontecia quando D. Manuel l concedeu Foral a Lagos em 15-3-1514. Andorinha chegou a pertencer ao antigo concelho de Midões e o concelho de Lagos veio também a integrar Santo Amaro.

Extinto o concelho de Lagos, tanto este como Travanca, que dele fazia parte, foi anexado ao de Oliveira do Hospital, por Dec. de 6-11-1836.

JDuarte

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Poesia e Património lV

MEDIEVAL

















Oh Travanca, que império!
Estás envolta em mistério.
Tanta campa edificada,
Tanta morte sacralizada!
Onde estão teus trovadores?
Eles que nos contem as tuas dores…


Tantos séculos de história,
Tragédias vividas, amor e glória.
Hoje só nos chega o teu granito,
Falta a voz do teu passado, um grito!
Oh Travanca, que inglória!
És um povo sem memória.


JC Duarte

domingo, 3 de agosto de 2008

Crónicas da minha terra, CAP. I


A TUNA DE TRAVANCA DE LAGOS

Poucos são os que olhando para esta fotografia conseguem identificar alguém. Bem, olhando com mais atenção, reconhece-se ali no meio a cara do Manso, sim, mas do Manso pai. Na verdade esta fotografia data de 1929/30, assim o diz António Pereira, o então miúdo, que se encontra mais à direita da fotografia, que junto com o seu irmão, José Pereira, são os últimos testemunhos vivos deste histórico momento fotográfico.
Fiquei muito admirado quando me garantiram que esta fotografia era de Gente de Travanca. Não podia acreditar pois desde miudinho que vou a Travanca e nunca tinha ouvido falar em tal. De manifestações culturais, tirando as festas de São Pedro e um grupo de teatro criado nos anos 80, havia pouco, era um vazio cultural. Por sinal esse grupo de teatro era muito bom, dinamizado pelo então pároco da aldeia, padre Manuel, que nesse tempo “mexeu”muito com a povoação. Produziram-se algumas peças, sobretudo comédias, em que as estreias representavam casa cheia, um autêntico acontecimento local com toda a povoção a assistir.
Em poucos segundos Travanca mudou radicalmente para mim - senti a sua história, o seu passado! Tudo à volta passou a ter um outro significado, as casas, as ruas, os cantos e recantos, senti que a nossa Terra já teve outros protagonistas, muitas histórias, que porém já não se contam, mas fica a ideia de outros tempos....
Foi no café do Entroncamento, onde estava pendurada esta fotografia, devidamente emoldurada, que tive este primeiro encontro místico com o passado. Perguntei ao Sr. Neto, que é o actual arrendatário do café, se a fotografia representava alguém de Travanca. Respondeu-me que sim e que todos os que constavam da fotografia já tinham sido identificados. O Sr. Ivo era talvez o único que a conseguiria decifrar, referindo que também ele constava nela, e ainda hoje já perto dos oitenta anos ainda tocava bandolim a convite de outras terras. Desconhecia estes factos, mas lembro-me do filho Carlos, este mais do meu tempo, que tocava bem viola.
Pedi emprestada a fotografia para tirar uma cópia, sentei-me com ela no café do Osvaldo, no povo, não arredando pé até chegar o Sr. Ivo, que dizem, parava por lá habitualmente à tarde. Esperei ansioso por ele, sentia que tinha a missão de perpetuar aquela memória de Travanca, de fazer história.
Por fim chegou. Era a mesma figura que conhecera desde sempre, pouco tinha envelhecido e após nos cumprimentarmos, sentámo-nos autenticamente agarrados à fotografia. Começou por referir que fez parte da Tuna de Travanca, assim chamada, mas que naquele ano ainda não tinha entrado, tinha apenas 7 anos. Retirou os seus óculos, que para ver ao perto de nada servia visto ser alto míope, mas pouco reconheceu por ver muito mal. Disse para esperarmos pelo irmão, o já mencionado Sr. António Pereira, que estaria também a chegar e ele sim poderia identificar todos, estando ele próprio na fotografia.
Quando o Sr. Pereira chegou, pedi-lhe que nos ajudasse. Prontamente aceitou. Conjuntamente com o irmão, o Sr. Ivo, iniciámos a aventura de decifrar todos os elementos da fotografia. Para eles era como voltar à sua infância. Para mim foi um misto de contentamento e de dificuldade em registar todos os nomes e relações, assim foi o ritmo da nossa conversa. Como se chamavam, o que faziam, onde viviam tudo saltava num frenesim diabólico.
Peguei numa folha de rascunho e desenhei vinte e quatro bolas – tantas quantas eram as pessoas e no alinhamento em que se apresentavam na fotografia, que era para não me enganar – e fui escrevendo o que iam dizendo freneticamente. Repetiam algumas vezes a meu pedido.
Em cima, da esquerda para a direita, começaram por dizer, estava António Baeto – que era quem transportava a caixa com os papéis de música – depois vinha António Pereira Marcos, tocava viola – segue-se António Santos Viegas na flauta, Adelino Prata, electricista, também na flauta e Fernando Lopes Monteiro no Bandolim – tornou-se bancário em Lisboa – depois Mário Bandeira no Banjo, Feliciano Mendes Borges ao Violino – Feliciano do Queijo, tinha um armazém - e António Brito Martinho também ao violino. Por fim, em cima, Carlos Ribeiro Pina que tocava bandola.
Ao centro, também da esquerda para a direita, está Armando Brito que tocava Bandolim, depois, ao que parece sentado, está Manuel Miguel na viola – vivia e era comerciante nas Campas, depois foi para África – a seguir vem António da Felicidade – meu tio, irmão do meu avô, tocava viola, seguindo-se Manuel Martins Borges, António Mendes Borges (o Manso), Sérgio Nunes Pereira - Irmão do Sr. Ivo e do Sr. Pereira, referindo que morreu muito novo, aos 20 anos – e Basílio Lopes Monteiro , que vivia na actual casa em ruínas junto à fonte de Baixo - todos tocavam viola. Por fim ao centro vêem os nossos testemunhos, os irmãos José Teles Nunes Pereira, ao Bandolim e António Nunes Pereira também ao bandolim e mais tarde ao violino, segundo diz.
Em baixo, sentados com os instrumentos aos pés, estão os Órgãos directivos, pessoas ilustres da terra, que suportavam economicamente a tuna e que provavelmente dariam também algum prestígio ao grupo. Então da esquerda para a direita, vem Batista Lemos – que era embarcadiço em Angola e morava na casa branca pegada à Fonte de Baixo – depois o Sr. mais idoso da fotografia era  Luís Martins Borges – pessoa ilustre e benfeitor de Travanca, que vivia no Entroncamento, na casa conhecida atualmente por casa do comandante, junto à rua com o seu nome – seguindo-se José Pinto Ribeiro, o Mestre da Tuna. Ao lado estava José Brito, o presidente da direcção da Tuna e também presidente da Junta de Freguesia nessa altura – era proprietário de uma agência de viagens em Oliveira do Hospital (Agência de Passagem e Passaportes) – e Diamantino Marques Neto, que vivia entre "a casa do Renato" e os jardins da actual junta de freguesia. A sua filha, D. Piedade era casada com um irmão do Comendador Costa Carvalho, também figura ilustre de Travanca. Por fim, está o Sr. Morgado que era ferroviário, desempenhando, segundo o Sr. Pereira, um cargo de chefia.
Fica assim relatada esta memória histórica, para o povo de travanca, que de outra forma poderia perder-se para sempre.
JDuarte

Crónicas da minha terra, CAP. II

Travanca de Lagos


Só depois de me ter interessado pela história de Travanca, o que de uma forma consciente é relativamente recente,  me apercebi de quanto é  difícil  conhece-la.  Existe pouca matéria  editada que fale de Travanca, talvez apenas existam alguns documentos soltos, mas que é preciso encontrar  e há pouca informação disponível na Web, facto que me deixa bastante triste. Sabendo que um dos processos de obter   informação é junto das pessoas, mais concretamente junto das mais idosas,   pensei  num plano  de recolha de informação, que passaria pela  recolha de  testemunhos e de possíveis documentos, obtenção de fotografias , etc., e com base nisso iniciar um processo que me permitisse ir reconstruindo o passado de Travanca .

A primeira pista levou-me a conhecer vestígios remotos de uma civilização antiga na freguesia – Sepulturas cavadas na rocha, no sítio do  Gorgulão, em Negrelos (freguesia de Travanca de Lagos) . Foi uma autêntica visita guiada ao local, que por gentileza do seu proprietário , o Sr. Carlos Martins, pessoa muito interessante e também apaixonado pela história, proprietário de um simpático café no Pinheiro dos Abraços,  palco de passagem e de  encontros,  me deu a conhecer a sua propriedade e algumas propriedades vizinhas, cheias dessas reminiscências do passado. Fiquei espantado e maravilhado com todo aquele arquivo histórico natural, parecia que estávamos a desenterrar uma cidade antiga perdida na floresta . As Sepulturas como estavam cheias de sedimentos pedi-lhe  para voltar noutra altura e então tirar algumas fotografias. Na verdade voltei ao local mais duas ou três vezes, tendo numa delas levado alguns ajudantes exploradores, para me auxiliarem na custosa tarefa de limpeza das áreas a fotografar. É sobre esse dia que reportam as imagens que se seguem:


Fig. 1 e 2 – Monólito de possível posto de vigia


Fig.3, 4 e 5 – Megálito representando um Conjunto




Fig. 6 e 7 – Megálito de uma possível habitação ou abrigo




Fig. 8 e 9 – Pormenor dos estancamentos

Fig.10 – Monólito com uma morfologia interessante



Fig.11, 12 e 13 – Construção granítica de habitação antiga, já em ruínas, entre dois megálitos, um dos quais com uma representação de conjunto e o outro com um pequeno santuário, de origem e data desconhecidas.





Fig.14 e 15 - Pormenor do santuário





Fig.16, 17 e 18 – Fornos medievais, possivelmente para cozer barro.





Fig.19 – Inscrição, sugerindo ser um termo de terras de infantado, segundo Correia das Neves.


Fig.20 – Eu e a minha equipa de exploradores




sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Poesia e Património 3

INVOCAÇÃO



















Procuro nas ruelas apertadas,
Espreito entre grades e ameias,
Toco no granito frio e apagado,
Ando pela calçada já gasta,
Polida pelo tempo e por desgraça
De figuras sofridas de preto.


Ouço vozes que vêem de longe,
Olho por entre janelas de cantaria chanfrada,
De dentro, voltam sombras do passado!
Figuras antigas, esquecidas pelo povo injustamente?
Procuro sinais do tempo que me digam,
Porque não se fala delas…


Ao longe vejo João Alvares Brandão,
Senhor da Casa de Travanca e sua mãe Catarina Vaz.
Vejo uma carroça antiga e bonita,
Puxada por um cavalo branco!
Relincha à varada no dorso e parte ensurdecedor,
Pelo outeiro repisado das ferragens.


Sento-me num marco de pedra,
Talhado já por mãos longínquas,
Tão antigo e só, que a história não o reconhece.
Foi outrora coluna da Splendidissima Civitas!
Sobre a ruína erguem-se novos frutos,
Cada pedra encaixa noutra charada.


Casas sobrepostas em becos cruzados,
Valetas centenárias por onde correm fluidos,
Os cheiros sinistros e intensos do ar.
Por detrás de uma cancela velha,
Descobre-se um pormenor interessante,
Que anuncia histórias e vidas por contar…


Oh! Mensageiro do tempo falido,
Enviado de veneráveis antepassados,
Portador de passos esquecidos!
Sossega a minha inquietação,
Revela-me os segredos perdidos…
JC Duarte

Poesia e Património 2

CASITA DAS CAMPAS



Num lugar da nossa história,
Velando campas esquecidas,
Ao fundo do lugar, em glória,
Testemunha memórias idas.


O granito do alpendre discreto,
Ao largo de quelhas pisadas,
Vigia quem passa perto
Guarda as almas abandonadas.


Num confronto não perdido,
Virado para quem passa,
Luta com um cruzeiro polido
P’lo protagonismo da praça!


E nesse confronto infinito,
Sem perder a sua graça,
Resiste ao tempo o granito
E vence ao cruzeiro a praça.
JDUARTE