sábado, 13 de novembro de 2010

Poesia e Património V




FONTE DE ENCANTOS


Fonte de água limpa, pura
Tantas vezes provada…
Cântaros de barro poisados, esperando
Em composição simulada.

Mulher de rosto fingido, em fuga
À sua vida destinada…
Cântaro cheio, transbordando d’água
Torna a ausência notada.

Amores, tragédias, paixões,
Oh Fonte dotada, inspiradora
De namoro aliada,

Consegues levar mulheres
A superar a vida pasmada!
Oh Fonte nossa antepassada

Deste vida nova,
Desta vida passada!

E a água sempre cristalina, pura
Sem dar por nada…

JCDuarte /010

domingo, 24 de outubro de 2010

Fotos antigas - Baptizado



Travanca de Lagos no pós-guerra. Um dia solene e também um dia de fartura a contrapor ao dia-a-dia de austeridade.

domingo, 17 de outubro de 2010

O misterioso Cemitério do Lameiro


Existe uma cruz de ferro, chumbada numa pedra tosca de granito, ocasionalmente visível num mato exuberante, que assinala um terreno sagrado, segundo se diz. O povo confirma-o, não por que conheça algo que o comprove, mas porque faz parte da sua memória colectiva. Todos são unânimes em dizer que aquele pedaço de terra no Lameiro foi em tempos o cemitério de Travanca. Ainda a corroborar essa história há o facto dessa pequena parcela de terreno ainda hoje pertencer à igreja.

A contrastar com o possível passado sagrado do referido terreno está o actual estado de abandono, a que constantemente é votado. Falta repor a sua dignidade procurando os factos históricos. Caso tenha sido um cemitério, que esclareçam as circunstâncias da sua criação e também do seu abandono

Objectivamente, tirando a referida cruz, o terreno não parece ter as características de um cemitério. Não tem um muro organizado que o delimite, nem nunca parece ter tido. É uma pequena elevação de terreno de forma triangular, rodeado por um lameiro, sem capacidade de ampliação. Portanto, tudo leva a querer que poderá ter sido um cemitério de recurso, talvez o 1º cemitério de Travanca de Lagos.



A prática dos enterramentos em cemitérios é relativamente recente, sendo a forma mais comum o enterro dentro dos templos ou nos adros das igrejas, modelo este que estava profundamente enraizado no Ocidente cristão desde a Idade Média. A mesma situação se passava na freguesia de Travanca, havendo assentos de óbito a partir de 1583 que referem exactamente essa prática. Concretamente, sepultavam os seus mortos dentro da igreja dando, às vezes, a sua localização, como é o caso de um assento em 1586 onde escreveram sepultada perto do alpendre, ou outro já mais tardio, que escreveram sepultada à porta principal desta igreja, ou ainda, enterravam no adro da igreja ou Adro de São Pedro. Cerca de 1650 começa também a aparecer a designação de capela de São Pedro. Por volta de 1700 mantêm a mesma prática, mudando apenas alguns nomes, ou seja, na Igreja de São Pedro ou no Alpendre de São Pedro ou ainda também na Ermida de São Pedro. Ao longo de todo este periódo foram sendo também enterrados na Capela de São João Batista, que fora uma capela instituída por João Alvares em finais do séc. XVI e que se situa dentro da igreja de Travanca, havendo vários registos de óbito ao longo dos séc. XVI e XVII até cerca de 1752 que o comprovam. Obviamente que apenas lá eram sepultados os instituidores e os seus descendentes. Os enterros no adro deixaram de se fazer por volta de 1722.


No séc. XVIII esta prática medieval de enterrarem os defuntos começa a gerar discussão. De facto, a necessidade de criação dos cemitérios públicos em Portugal vem descrita já desde o terramoto de 1775. As pessoas mais esclarecidas da época chamavam à atenção para os riscos para a saúde pública dessa prática de enterramento nas igrejas. A 1ª legislação sobre esta matéria foi da autoria de Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro do Reino e curiosamente natural de Midões, que institui especificamente, pelos decretos de 21 de Setembro e de 8 de Outubro de 1835, a obrigatoriedade de criação de cemitérios públicos fora das povoações.




Mas, para surpresa nossa, muito antes dessa legislação entrar em vigor já tinha sido criado um cemitério em Travanca. Curiosamente, foi em 13 de Julho de 1811, em plena invasão Francesa, que o prior João Ferreira Machado e Silva procedeu pela 1ª vez a um enterramento no Cemitério, a que ele apelidou simplesmente de cemitério, sendo o defunto Jacinto de Abrantes, marido de Tomasia Maria, ambos de Travanca. Apenso aos registos da época está uma carta onde o prior pede autorização eclesiástica para esta nova prática de enterramentos, justificando-a com a falta de espaço nos dois templos existentes, a igreja e a capela, provocada por uma epidemia de Febre Maligna que assolou a freguesia. De facto, entre Outubro de 1810 e 27 de Outubro de 1811 faleceram 66 pessoas, o que determinou na altura essa medida extraordinária.


Mas, reposta a normalidade, o cemitério não foi desativado. A partir dessa data, os enterramentos foram sendo feitos indiscriminadamente, quer na igreja quer na capela quer no cemitério. Em 1835 quando a lei da criação de cemitérios fora das povoações entrou em vigor, o cemitério de travanca (do Lameiro), já estava em uso há 24 anos, foi provavelmente aproveitado como um local de transição para um novo, visto que ele era demasiado pequeno para servir como único local de enterros. Começou então a ser referido nos registos como o chamado cemitério da freguesia, justificando dessa forma a existência de um e cumprindo portanto a lei. A 1ª vez que assim foi tratado foi em 4 de Outubro de 1835, a propósito do falecimento de José Marques Neto Júnior de Travanca, coincidindo com a entrada em vigor da nova legislação.


A partir de 2 de Fevereiro de 1839 voltou-se a chamar cemitério da freguesia ao local de enterramento dos defuntos, embora se creia que se referissem já ao novo cemitério de Travanca de Lagos entretanto construído, levando o do Lameiro à sua situação actual. Durou, portanto, cerca de 28 anos ao serviço da freguesia e como não existe nenhum culto associado a ele que perdure, crê-se que terão transladado as sepulturas remanescentes para o novo local. Fica assim resolvido o mistério do Cemitério do Lameiro, também conhecido como Cemitério Velho e conhecida a sua história, complementando assim a memória colectiva do povo de Travanca .

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pessoas de Travanca com história - Manuel da Silva


Morreu novo, provavelmente assassinado por vingança, quando passava para a feira dos Carvalhais, perto dos Fiais da Beira, corria o ano de 1842. Segundo Joaquim Martins de Carvalho, em Novos apontamentos para a história contemporânea, a sua morte foi pública e os assassinos foram identificados como sendo António Brandão, o Velho, e o seu sobrinho Manuelzinho. Pertenciam ambos ao Bando dos Brandões de Midões, inimigo figadal do bando dos Brandões do Casal, do qual Manuel da Silva era um sicário.

Foi nesse tempo conturbado das guerras liberais, em que o país estava a ferro e fogo, que ele viveu. A nossa região da Beira Alta era particularmente violenta, tendo-se mantido assim muito tempo para além de terminada a questão liberal. Em nome da política cometiam-se roubos e crimes violentos, assassinatos e vinganças que ficavam sem punição - era a lei da bala!

Quanto aos "feitos" de Manuel da Silva existem poucos relatos escritos, mas sabe-se que participou seguramente em muitas aventuras com os Brandões, primeiro hasteando a bandeira do Liberalismo e mais tarde também, levantando a bandeira do Banditismo. Individualmente foi-lhe atribuída a horrorosa morte do vigário do Ervedal, juntamente com as criadas e mãe. Só 22 anos mais tarde é que se apurou a verdade - tinha sido acusado injustamente- o vigário fora morto pelos próprios irmãos. Esteve também envolvido no cerco ao Bando do Caca, capitaneando como paisano um grupo de civis de Travanca , juntamente com outros paisanas e demais civis e autoridades da época, naquela que seria conhecida como a Matança da Páscoa.

O lendário João Brandão tinha ainda só 16 anos quando Manuel da Silva foi morto, a 29 de Agosto de 1842, vindo descrito na sua certidão de óbito que era casado com Ana Vaz e moravam em Travanca de Lagos. Deixou um filho, que se chamava Luís da Silva, que poucos anos depois foi também assassinado à porta da igreja de Travanca por Paulino José da Costa, de Lagares. Vem assim descrito em Os assassinos da Beira: -" Na povoação de Negrelos, freguesia de Travanca, existia um fulano Ferrão, cunhado de Luís da Silva, o qual, por causa de bens, matou aquele dentro de Negrelos, imputando o facto a Paulino. Este, sobrinho do então pároco de Travanca, num Domingo, quando o povo estava reunido para ouvir a missa, duma janela de casa do tio perguntou a Luís da Silva: - Ó F., quem matou o Ferrão? Silva , voltando-se, disse: - Eu já lhe respondo; e encaminhando-se para casa, que era perto, para, supôs-se, ir buscar a clavina, é passado por uma bala à vista do povo! E ninguém gritou contra o matador!" Assim reza a história.