domingo, 24 de julho de 2011

A enigmática Capela de São Pedro






Hoje em dia Travanca, mais concretamente a sua zona histórica, surge-nos como um postal antigo, ainda original (dirão uns), um pouco decadente e desabitada (dirão outros), decerto muito antiga, mas, é uma ilusão pensar na sua originalidade intemporal - não foi sempre assim.



Por detrás desse postal antigo, encontra-se um mais antigo e outro ainda, esse, quase sem vestígios que justifiquem já a sua existência. Procurar vestígios que nos levem a outros quadros que não os da actualidade é sempre um grande desafio e representa um dos principais desígnios deste blog.

Travanca reinventada ao longo dos séculos perdeu património, talvez demasiado, que nos impede hoje de perceber melhor o nosso passado comum, sem lacunas no tempo. Hoje em dia pretende-se embelezar a fotografia, substituindo calçadas antigas medievais por novos pavimentos e abatendo casas antigas, embora algumas bastante degradadas, em vez de as preservar. Mantêm-se a tendência do passado, agravada pelo facto de hoje haver a consciência da importância que o património tem na sobrevivência das aldeias do interior, como é o caso de Travanca.






Um desses monumentos que se perdeu algures no final do séc. XIX, e que é motivo do presente artigo, foi a Capela de São Pedro, assim referida nas escrituras, uma capela já desconhecida do nosso tempo, e que apareceu como uma "ponta solta", inexplicável, ao se investigar o cemitério do Lameiro.


A 1ª vez que a capela vem referida nos registos paroquiais data de 1650, e era usada então, para entre outros serviços religiosos, para serviços fúnebres, tendo sido lá realizados enterramentos até cerca de 1835, altura em que entrou em vigor a lei dos cemitérios públicos, terminando assim quase 200 anos de enterros na capela. Custa portanto aceitar que na altura da sua destruição, os edis da Terra não tenham tido isso em consideração.



Mas provar a sua existência ou até a sua localização parecia impossível. Partia com três possibilidades: - 1º ser uma capela dentro da igreja de Travanca, à semelhança da Capela de Sªº João Baptista; 2º ser a Capela de S.to António, situada no Fundo do lugar, e que teria mudado de nome/ apóstolo (muito pouco provável), ou por último, ter mesmo existido uma capela de S. Pedro algures por Travanca.



O impasse foi superado quando numa conversa fortuita com um amigo de Travanca, ele me revelou que a sua família era fiel depositária do sacrário da bendita capela. O Sacrário, também chamado Tabernáculo, é o Local ou reservatório onde se guardam coisas sagradas, como hóstias ou relíquias. A ilustre família de Travanca, a quem eu estou muito agradecido, amavelmente mostrou-me o bonito e bem conservado sacrário e revelou-me também a história que o acompanhava.
















Referiram que a peça sacra lhes veio por herança de um tio que a guardou quando a capela foi destruída, para no seu lugar ser construída a casa paroquial - surpreendente, edificaram a casa do padre em cima de um local sagrado!

A data da construção da casa paroquial é desconhecida por enquanto. Quanto à data da demolição da capela, não há certeza, mas, é de referir, que as reuniões de tomada de posse dos órgãos de direcção da Irmandade de São Pedro, foram sendo realizadas dentro da capela até ao ano de 1887, data a partir da qual as reuniões se passaram a fazer noutros locais, como por exemplo, a sacristia da igreja.







Resta-me referir que o uso da capela pela Irmandade como se de uma "sede" se tratasse é uma possibilidade, podendo ter sido construída pela Irmandade ou por algum irmão abastado. A Irmandade de São Pedro foi constituída e os seus estatutos aprovados em 1632, sendo comum naquele tempo a edificação de um templo onde pudessem prestar a devoção ao seu santo patrono. Porém, não se encontrou até à data nenhum documento que possa comprovar esta ideia.



Fica no entanto esclarecido o enigma da existência da capela de São Pedro, embora, o tema ainda careça de novas investigações, nomeadamente, para esclarecer a relação com a Irmandade e a sua localização precisa.